Sob esta assinatura estão incluídos grande parte dos vinhos produzidos pela Justino’s Madeira. O portfólio abrange desde os Madeiras jovens, produzidos a partir da casta Tinta Negra, até aos Madeira frasqueiras dos quais se destacam o Sercial 1940, Verdelho 1954, Boal 1934, Malvasia 1933 e alguns vinhos velhos produzidos a partir da casta Terrantez. Num eterno equilíbrio entre a tradição e a inovação, a marca mostra toda a diversidade que um vinho da Madeira pode apresentar, razão pela qual é considerado um vinho único e inimitável. Uma marca com história, com paixão, alma e muito coração.
A presença do Arquipélago da Madeira em manuscritos e cartografia europeia do século XIV desafia a noção tradicional de um “descobrimento” no início do século XV. Referências como o Libro del conoscimiento de todos los Reynos, bem como a representação das ilhas em mapas italianos e catalães da época, indicam que a Madeira era já conhecida antes da chegada oficial dos navegadores portugueses.
A designação e localização do arquipélago surgem em documentos náuticos fundamentais, como a Carta de Dulcert (1339) e o Portulano Mediceo Laurenziano (1351), entre outros registos dos séculos XIV e XV. Nestes mapas, as ilhas aparecem identificadas com nomes muito próximos dos atuais – Legname (Madeira), Santo Christi ou Puerto Santo (Porto Santo) e Deserte (Desertas) – sugerindo um conhecimento prévio da sua existência e posição geográfica.
É plausível que o arquipélago tenha sido visitado anteriormente, possivelmente durante o reinado de D. Afonso IV, no contexto de expedições luso-genovesas que navegavam rumo às Ilhas Canárias. Ainda assim, a versão consagrada pela historiografia portuguesa aponta para a redescoberta oficial em 1418, quando João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, ao serviço do Infante D. Henrique e em missão de exploração da costa africana, foram desviados da sua rota e aportaram à ilha do Porto Santo. Reconhecida a sua importância estratégica para a navegação atlântica, regressaram a Portugal e propuseram o reconhecimento e povoamento do arquipélago.
Em 1419, Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zarco exploraram a ilha da Madeira, até então visível apenas como um banco de nuvens a partir do Porto Santo. Esta data é tradicionalmente aceite como a do descobrimento oficial da ilha.
Com uma área total de cerca de 801 km?, o arquipélago é composto pela Ilha da Madeira, pela Ilha do Porto Santo e respetivos ilhéus, bem como pelos grupos das Ilhas Desertas e Selvagens – territórios de elevado valor ecológico e expressão atlântica singular.
A Ilha da Madeira, com aproximadamente 735 km2, é a maior e mais relevante do arquipélago. Apresenta uma forma alongada, com cerca de 57 km de comprimento e 23 km de largura máxima, concentrando a maior parte da população, da atividade económica e da área vitícola.
Madeira
A Ilha da Madeira beneficia de um clima temperado de forte influência oceânica, moldado pelos ventos alísios e por uma orografia singular. A presença de uma cordilheira central de elevada altitude cria uma clara distinção entre a vertente sul – mais soalheira e protegida — e a vertente norte, mais húmida e fresca, dando origem a uma extraordinária diversidade de microclimas.
A variação de altitude é um fator determinante: à medida que se sobe, alteram-se temperatura, humidade e precipitação. No litoral sul, as temperaturas médias anuais situam-se acima dos 17 °C, enquanto nas zonas planálticas e nos picos centrais descem para valores próximos dos 9 °C. O verão é geralmente longo e moderado, tornando-se mais quente numa estreita faixa da costa sul.
A nebulosidade e os nevoeiros são frequentes a médias altitudes, sobretudo no inverno, contribuindo para uma maturação lenta e equilibrada da uva. A amplitude térmica anual é reduzida junto ao mar e mais acentuada nas zonas montanhosas, favorecendo frescura natural e precisão aromática.
A precipitação aumenta significativamente com a altitude, variando de cerca de 500 mm na costa sul a mais de 3.200 mm nas zonas mais elevadas do interior. A humidade relativa oscila entre 55% no litoral e valores elevados nas zonas de nevoeiro, criando condições ideais para a diversidade vitícola da ilha.
A temperatura da água do mar mantém-se estável ao longo do ano, entre cerca de 17 °C e 22 °C, reforçando o carácter oceânico do clima e a moderação térmica global da ilha.
Porto Santo
Os ventos são dominantes do quadrante norte e mais intensos do que na Madeira, influenciando decisivamente o ciclo vegetativo e a expressão das vinhas. A temperatura da água do mar é amena durante grande parte do ano, atingindo 24 – 25 °C no verão. Estas condições extremas e singulares conferem aos vinhos do Porto Santo um perfil distinto, marcado por frescura, salinidade e identidade atlântica.
Madeira
A Ilha da Madeira é de origem vulcânica, formada durante o Miocénico por sucessivos episódios eruptivos iniciados há cerca de 14 milhões de anos. O seu relevo acidentado resulta da acumulação de materiais vulcânicos — como basaltos e rochas piroclásticas — e da intensa erosão ao longo do tempo.
A atividade vulcânica cessou há cerca de 6.000 anos, deixando uma paisagem de grande dramaticidade e diversidade geomorfológica.
O território é dominado por uma região central elevada, marcada por maciços montanhosos imponentes, vales profundos e escarpas de declive acentuado. Entre as zonas altas destacam-se áreas relativamente planas, como o Paúl da Serra, o Poiso e o Santo da Serra, bem como superfícies estruturais conhecidas localmente como achadas.
A cadeia montanhosa que forma a espinha dorsal da ilha funciona como uma barreira natural entre as vertentes norte e sul, influenciando decisivamente o clima, a vegetação e a viticultura. Cerca de metade da superfície da ilha situa-se acima dos 700 metros de altitude, com aproximadamente 65% do território a apresentar declives superiores a 25%.
Os pontos mais elevados são o Pico Ruivo (1.862 m) e o Pico do Arieiro (1.818 m). A partir da região central, o relevo desce em vertentes mais ou menos íngremes em direção ao litoral, profundamente entalhadas por vales de perfil torrencial que estruturam a rede hidrográfica da ilha.
A costa da Madeira é maioritariamente alta e escarpada, particularmente na vertente norte, onde as falésias podem atingir desníveis superiores a 500 metros. Em alguns pontos surgem pequenas planícies costeiras, conhecidas como fajãs, resultantes de processos de erosão e desmoronamento.
A agricultura desenvolve-se sobretudo em encostas com declives intermédios, tornada possível pela construção manual de socalcos — os tradicionais poios. Os cursos de água são geralmente temporários, com caudais elevados no inverno e reduzidos ou inexistentes no verão, especialmente na vertente sul. As nascentes, alimentadas por águas de infiltração, são mais frequentes e regulares na vertente norte da ilha.
Porto Santo
O Porto Santo teve origem como um vulcão-escudo submarino, formado entre o Miocénico inferior e médio, há cerca de 18 milhões de anos, sendo geologicamente mais antigo do que a Ilha da Madeira. As últimas erupções ocorreram há aproximadamente 10 milhões de anos.
Do ponto de vista geomorfológico, a ilha distingue-se por um relevo mais suave e aberto, com extensas áreas planas, colinas de declive pouco acentuado e picos isolados, evocando paisagens das ilhas mais orientais do arquipélago das Canárias. Esta configuração contrasta fortemente com o relevo abrupto da Madeira.
A vertente sul é marcada por uma extensa praia de areia branca com cerca de 9 km, enquanto a costa norte apresenta falésias costeiras imponentes, que em alguns sectores ultrapassam os 200 metros de altura.
O relevo é predominantemente baixo, com exceção de alguns picos isolados, entre os quais se destacam o Pico do Facho (517 m), o ponto mais alto da ilha, o Pico do Castelo (437 m) e o Pico Branco (450 m).
A zona central é ocupada por planaltos que se articulam com pequenas elevações, como o Pico de Ana Ferreira.
Com precipitações escassas e concentradas nos meses de inverno, o Porto Santo não possui cursos de água permanentes, reforçando o carácter árido e singular do seu território.
Madeira
A Ilha da Madeira possui uma origem geológica eminentemente vulcânica, refletida numa grande diversidade de rochas eruptivas, onde predominam basaltos, gabros e formações traquíticas, acompanhados por materiais piroclásticos. Em áreas mais limitadas, sobretudo ao longo da costa, vales e fajãs, surgem também formações sedimentares.
Os solos da ilha derivam maioritariamente de materiais basálticos, com variações associadas à altitude. Nas zonas mais baixas predominam solos escuros, compactos e ricos em ferro, enquanto nas altitudes mais elevadas são frequentes solos derivados de rochas traquíticas. Esta diversidade contribui para a complexidade e singularidade da viticultura madeirense.
A erosão é um fator estrutural na evolução dos solos da Madeira, intensificada historicamente pela ação humana, nomeadamente pela pastorícia, pelas queimadas e pela elevada pluviosidade nas zonas altas. Para tornar os terrenos agricultáveis em encostas acentuadas, foi necessário intervir profundamente na paisagem através da construção de socalcos – os tradicionais poios — que moldaram não apenas o relevo, mas também o perfil dos solos.
Estas intervenções implicaram a mistura e reorganização dos horizontes pedológicos, originando solos parcialmente ou totalmente modificados. Apesar destas alterações morfológicas, a granulometria, a composição mineralógica e o comportamento físico-químico mantiveram-se, em geral, estáveis.
De um modo geral, os solos da Madeira apresentam boas propriedades físicas e respondem favoravelmente à irrigação. São, contudo, naturalmente pobres em calcário e em alguns nutrientes essenciais, como o potássio e o azoto, o que exige práticas de correção e fertilização cuidadas.
Predomina uma reação ácida a muito ácida, sendo frequente a necessidade de correções calcárias para aproximar o pH dos níveis ideais ao desenvolvimento da vinha. Os teores de matéria orgânica tendem a ser médios ou baixos, enquanto ferro e fósforo se encontram, habitualmente, em quantidades suficientes.
Estufagem: inovação madeirense desde o século XVIII
A geologia do Porto Santo é marcada por uma notável diversidade litológica, que inclui rochas vulcânicas básicas a intermédio-ácidas, como basaltos, hawaiitos, traquitos e riolitos, todas de idade miocénica. Sobre este substrato assenta uma extensa cobertura sedimentar quaternária, composta maioritariamente por areias e arenitos calcários, especialmente expressiva na zona central da ilha.
A maioria dos solos agricultáveis do Porto Santo é de natureza calcária, com textura variável e elevado grau de saturação em bases. Apresentam, com frequência, fases sódicas e um pH alcalino, geralmente entre 7 e 9. Apesar de possuírem uma fertilidade química razoável, a sodização e a escassez hídrica constituem limitações importantes ao seu potencial produtivo.
Existem ainda solos minerais de textura fina, também com influência sódica, mas com pH ligeiramente ácido a neutro. Estes solos revelam boa aptidão agrícola, embora o teor de sódio possa condicionar a produtividade.
As condições edafoclimáticas únicas do Porto Santo conferem aos seus solos um papel determinante na expressão dos vinhos, traduzindo-se em perfis marcados por tensão, salinidade e identidade atlântica.
Madeira
A paisagem vegetal da Ilha da Madeira foi profundamente moldada pela ação humana ao longo dos séculos. A ocupação intensa do território, associada à pastorícia, às queimadas e à exploração florestal — em particular durante o ciclo do açúcar — alterou de forma significativa a vegetação original da ilha.
Atualmente, o coberto vegetal é dominado por áreas agrícolas, espécies florestais introduzidas, matos de espécies autóctones e prados naturais. As formações vegetais indígenas, integradas na flora da Macaronésia, subsistem sobretudo em áreas mais húmidas e de difícil acesso.
Entre os 600 e os 1.300 metros de altitude, onde se registam elevados níveis de humidade, persistem núcleos notáveis da floresta Laurissilva – uma floresta higrófila primitiva composta por espécies como til, vinhático, loureiro, folhado e cedro. Este ecossistema, classificado como Património Mundial da UNESCO em 1999, é uma relíquia viva da vegetação que cobria vastas áreas da Europa há milhões de anos e constitui um dos maiores tesouros naturais da Madeira.
Grande parte da área outrora ocupada pela Laurissilva foi substituída por espécies de crescimento rápido, como eucaliptos, acácias e pinheiros, cuja natureza invasora levanta desafios ao equilíbrio dos ecossistemas naturais.
Grande parte da área outrora ocupada pela Laurissilva foi substituída por espécies de crescimento rápido, como eucaliptos, acácias e pinheiros, cuja natureza invasora levanta desafios ao equilíbrio dos ecossistemas naturais.
Nas altitudes mais elevadas, a vegetação torna-se mais escassa e resistente, com espécies adaptadas a condições extremas de frio, vento e, ocasionalmente, neve.
A agricultura desenvolve-se maioritariamente abaixo dos 6oo metros de altitude, em explorações de pequena dimensão, frequentemente organizadas em socalcos artificiais — os tradicionais poios. Para além da vinha, destacam-se culturas como a banana, a cana-de-açúcar, árvores de fruto tropicais e temperados, cereais e hortícolas. Com exceção da banana e da cana-de-açúcar, a maioria das culturas, incluindo a vinha, integra sistemas tradicionais de policultura intensiva, que contribuem para a biodiversidade e resiliência agrícola da ilha.
Porto Santo
A vegetação do Porto Santo reflete o seu clima semiárido e a maior exposição aos ventos. O coberto vegetal é maioritariamente constituído por plantas xerófilas anuais e bienais, adaptadas à escassez de água e à elevada luminosidade. A presença arbórea é limitada e concentra-se sobretudo em plantações de coníferas exóticas nos pontos mais elevados da ilha.
Ainda assim, subsistem importantes núcleos de vegetação natural, sobretudo em escarpas e zonas de difícil acesso, onde se encontram espécies endémicas do arquipélago da Madeira. Estes redutos representam um património botânico de elevado valor ecológico.
A brioflora do Porto Santo – composta por musgos e espécies afins —, embora discreta, desempenha um papel essencial no equilíbrio do ecossistema, contribuindo para a retenção de água, a regulação térmica e a criação de micro-habitats. A maioria das espécies apresenta afinidades mediterrânicas, com maior tolerância à secura e ao calor, enquanto nos picos mais elevados surge uma diversidade mais marcada, incluindo espécies de influência atlântica, comuns também nas Ilhas Desertas.